Metodologias alternativas de ensino por Mauro Fantini

Postado em 21/02/2017 por Gilliane Correia Wichello.

Com informações de Por Dr. Mauro Fantini, docente do Centro Universitário São Camilo- SP.

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METODOLOGIAS ALTERNATIVAS DE ENSINO : Essa geração não quer nada com nada? Por Dr. Mauro Fantini, docente do Centro Universitário São Camilo- SP

 

É meio da manhã de quarta-feira e um professor, vestindo jaleco branco e segurando alguns pacotes de provas, entra na sala dos professores. Ele se senta junto a outros colegas e, visivelmente frustrado, narra sua mais recente experiência em sala de aula.

 

“Eu falei tudo sobre a estrutura dos anticorpos, comentei sobre a função dos linfócitos e expliquei detalhadamente o que é processo inflamatório. Aí eu pergunto tudo isso na prova e os caras erram!”

 

Para mim é uma decepção quando algo que deveria estar claro para uma turma de alunos não está. Eu provavelmente já devo ter dito algo similar ao discurso do nosso professor fictício algumas vezes na vida. Acredito que a frustração faz parte de qualquer processo de aprendizagem com o qual há um comprometimento mínimo, um desejo de atingir um objetivo. Do mesmo jeito que uma criança aprendendo a andar cai muitas vezes, reclama e chora, um professor que está aprendendo a ser um professor (estamos sempre, não?), também tem seus momentos decepcionantes de queda. Normal.

 

O problema maior está no veredito do professor, que já ouvi muitas vezes: “Aí eu pergunto tudo isso na prova e os caras erram! Essa geração não quer nada com nada.”

 

“Essa geração não quer nada com nada” é prima da famosa “no meu tempo não era assim”. 

 

“Essa geração não quer nada com nada” é prima da famosa “no meu tempo não era assim”. Aquele questionável saudosismo enviesado por memórias de fidelidade duvidosa. Será que no passado os alunos, ainda seres humanos como os de hoje, eram tão diferentes assim? Como este não é o ponto principal do meu argumento, vamos dizer que sim, só para facilitar.

 

Minha principal reflexão aqui é que se “essa geração não quer nada com nada”, bem, então não há nada para ser feito, certo? O professor é de uma geração, melhor, os alunos são de outra, pior, e assim permanecemos. Um finge que ensina e o outro finge que aprende, parecido com a passagem do jogador Vampeta pelo Flamengo (“eles fingem que pagam e eu finjo que jogo”).

 

Eu discordo. Acredito que uma aula pouco produtiva ou uma avaliação com resultado abaixo (ou diferente) do esperado não podem ser simplesmente explicadas pelo desinteresse de uma geração e ponto final. O que enxergo como saudável é pensar: “essa geração não se interessou por aquilo que eu trouxe, do jeito que eu trouxe.”

 

Além de professor universitário, também trabalho como palhaço no hospital. Podem parecer atividades bem distintas, mas a similaridade é enorme, principalmente a respeito de um objetivo essencial tanto para o palhaço, como para o professor: conexão com o outro.

 

Nem sempre quando entro em um quarto de hospital acontecem coisas incríveis e prazerosas. Estamos em um hospital, pessoas estão sofrendo, angustiadas, com inúmeras dúvidas sobre o futuro. Um palhaço não necessariamente é aquilo que o paciente mais quer ver naquele momento, mas algo ele quer. Algo ele quer. Algo o interessa, algo o move, algo o motiva. Amor, saúde, pertencimento, dinheiro, competição, brincadeira, poesia. Para cada pessoa é diferente, mas esse algo existe, caso contrário a pessoa já morreu. O trabalho do palhaço, então, é mapear a situação, encontrar esse algo e, a partir disso, brincar.

 

Sendo assim, quando não temos tanta conexão em um quarto de hospital – “aquele quarto não rolou”, dizemos – sempre o palhaço reflete: eu falhei em encontrar o tal do algo. A mágica que eu levei, a música que eu toquei, a piada que eu contei… nada disso era o que o paciente queria. Talvez ele quisesse o silêncio e eu não percebi.

 

Na sala de aula é a mesma coisa. O jeito com que eu falei sobre o anticorpo, o tempo que levei para comentar a função dos linfócitos, o nível de detalhamento do processo inflamatório… talvez o aluno não queria nada disso. Não que ele tenha algo contra o anticorpo em si, mas sim contra o método escolhido para abordar o tema.

 

Por isso, quando ouço falar sobre metodologias alternativas de ensino, sempre ouço com otimismo. O “alternativo” me sugere um desvio ao jeito planejado, esperado, enraizado, me sugere ações derivadas de crises e frustrações e acho isso ótimo! É um sinal de progresso, seja qual for exatamente o alternativo.

 

Atualmente na minha atividade de professor universitário não trabalho com um modelo único de aula. Algumas aulas são simulações de congressos científicos, outras são discussões em roda. Dou uma avaliação em que os alunos vêm fantasiados e participam de um tribunal, outra em que eles precisam criar uma narrativa do ponto de vista de um protozoário e outra em que eles precisam bolar memes de facebook sobre imunologia. Algumas dessas atividades eu adaptei a partir de experiências que eu tive, outras criei do zero. Mas o que mais me importa é que quando comecei a trabalhar como professor, eu não fazia nenhuma dessas práticas. Eu apenas repetia os modelos de aula que me foram ensinados na escola e faculdade. Modelos que faziam sentido para a geração dos meus professores, mas não necessariamente para a minha. Assim, todos esses exemplos que eu citei são metodologias alternativas.

 

Quem define o que é uma metodologia alternativa? “Alternativas” segundo quem? Segundo eu mesmo, oras! São alternativas ao caminho que comecei a trilhar como docente e que surgiram a partir de crises e fracassos que tive no passado.

 

Por isso, mais do que comparar aulas expositivas com metodologias ativas, ou práticas com teóricas, minha provocação neste texto é: professor, quais são as alternativas a você mesmo? Será que alguma das suas próprias alternativas não é capaz de dialogar com mais proximidade aos seus alunos?

 

Afinal, seja de qual geração você ou seu aluno for, todos queremos algo.