"São demais os perigos desta vida pra quem tem paixão principalmente..."

Postado em 19/03/2013 por Patrícia Barcelos.

Com informações de Prof. Fábio Brito.

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Vinicius, que é o poeta do encontro, como bem disse Otto Lara Resende, faria, em 19 de outubro, 100 anos. Exatamente por causa do centenário de nosso “Poetinha”, resolvemos marcar um encontro com ele. Onde? Num boteco. Quer lugar melhor para encontrar alguém que recusou todas as “pompas”? Dia 14 de março, exatamente o “Dia da Poesia”, professores, coordenação e alunos do curso de Letras/Português do Centro Universitário São Camilo/ES, em Cachoeiro de Itapemirim, tiveram um encontro com Vinicius no sarau “São demais os perigos desta vida pra quem tem paixão...: 100 anos de Vinicius”.

 

O cenário, um “botequim” com direito a mesas, garçons, bebidas, petiscos e violão, foi tomado de uma euforia sem par, trazida por poemas e canções de nosso Vinicius, o poeta de todas as paixões. Logo após a leitura do texto “Vinicius, poeta do encontro”, de Otto Lara Resende, que abriu o sarau, a interpretação “a capela” da belíssima “Se todos fossem iguais a você”, parceria de Vinicius com Tom Jobim, estendeu o tapete vermelho para a homenagem que tomaria conta de todos. Após dizer ao “Poetinha” que, se todos fossem iguais a ele, seria uma maravilha viver, o sarau guiou-se por temas recorrentes na obra do homenageado: a infância, a mulher amada, a exaltação ao amor, a separação, a saudade, a volta, o gozar a vida, a morte/”a hora íntima”.

 

Em “Aquarela”, entoada logo após o poema “O poeta aprendiz”, o auditório foi tomado de uma comoção ímpar: todos cantaram a bela letra de Vinicius, parceria com Toquinho, seu “irmãozinho” mais fiel, Guido Morra e Maurizio Fabrizio. “O pato”, do especial e do disco “Arca de Noé”, também contou com o auxílio luxuoso de todo o auditório. Tal canção é a prova de que não há quem não conheça a obra infantojuvenil de Vinicius, em especial as canções que integram as “Arcas” (I e II), lançadas em 1980 e 1981, e “Casa de brinquedos”. Bons tempos em que a criançada podia se dar o luxo de receber canções de um compositor/poeta do porte de Vinicius, entoadas por cantores como Chico Buarque, Elis Regina, Tom Zé, Clara Nunes, Tom Jobim, Ney Matogrosso, Paulinho da Viola, Milton Nascimento e muitos outros. “Pedro, meu filho” e a canção “O filho que eu quero ter” fecham a primeira etapa do sarau.

 

Na sequência, o “Soneto do Corifeu”, de Orfeu da Conceição e que marca o início da parceria Vinicius/Jobim, dá início a um dos temas mais profícuos da obra do poeta: a mulher amada. “Minha namorada”, “A brusca poesia da mulher amada II”, “Poema dos olhos da amada” (com direito a uma letra em francês), “Garota de Ipanema” (uma das canções brasileiras mais conhecidas no mundo), “Lamento no morro” (também de Orfeu da Conceição) e o conhecidíssimo “Soneto de fidelidade” (“De tudo, ao meu amor serei atento / Antes...”) fecham o bloco dedicado à mulher, sempre amada e exaltada. Para arrematar, é a vez de “Como dizia o poeta”, parceria com Toquinho e por meio da qual o poeta nos ensina que “a vida só se dá pra quem se deu / pra quem amou, pra quem chorou pra quem sofreu”. Quem ousa, então, depois de Vinicius, não rasgar o coração?

 

“Regra três” e “Soneto de separação”, que vêm logo depois de “Como dizia o poeta”, provam que, em se tratando de Vinicius de Moraes, toda separação não dura muito, não dura quase nada, em verdade. Por isso, é o próprio poeta quem pergunta: “E por falar em saudade, onde anda você?” No sarau, a canção, uma parceria com Hermano Silva, transformou-se em texto declamado em forma de diálogo. Momento brilhante do espetáculo. O “Samba da volta”, que também chegou separado da melodia, disse tudo: “Você voltou, meu amor / Alegria que me deu...”. Separação? Que nada! Então, para comemorar a volta, é hora de uma das mais belas declarações de amor: “Eu sei que vou te amar”, que ganhou o requinte de um violino. Pungente momento.

 

E por falar em exaltação ao amor, nós, pobres mortais, não temos a mínima noção acerca de como é viver um grande amor, não é mesmo? Vamos vivendo e pronto. Vinicius, no entanto, tem a “receita”. Em “Para viver um grande amor”, eis o que ele nos diz: “Para viver um grande amor, é muito / Muito importante viver sempre junto / E até ser, se possível, um só defunto / Pra não morrer de dor (...)”. Alguém, por acaso, conhece receita melhor? Mesmo assim, longe de qualquer soberba ou pretensão, o “Poetinha” prova que a razão está, de fato, com a vida: “A vida tem sempre razão”. E, se ela tem tanta razão, por que não gozá-la? Como? Passando uma “Tarde em Itapuã”. Nada de tédio ou chateação, claro! Assim, constatamos que a vida gosta de quem gosta “dela” e pronto.

 

Em “Testamento”, que dá início à última etapa do sarau, nosso poeta é categórico: “Você que só ganha pra juntar / O que é que há, diz pra mim, o que é que há? / Você vai ver um dia / Em que fria você vai entrar / Por cima uma laje / Embaixo a escuridão / É fogo, irmão! É fogo, irmão!”. Depois de ler tais versos, muita gente deveria escrevê-los no teto que fica sobre a cama. Para quê? Para, ao acordar, lê-los todos os dias e, de preferência, em voz alta. É... há um povo por aí que desconhece a brevidade da vida... “E tome gravata!” Em “A hora íntima” (“Quem pagará o enterro e as flores / Se eu me morrer de amores?”) e “Deixa” (“Ninguém vive mais do que uma vez”), Vinicius vem total, assim como em “O haver” (“Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto / Esse eterno levantar-se depois de cada queda / Essa busca de equilíbrio no fio da navalha / Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo / Infantil de ter pequenas coragens”), este um dos mais belos poemas em língua portuguesa. Quase fechando a noite, é a vez de “Chega de saudade”, uma das canções mais conhecidas, e gravadas, da dupla Vinicius/Tom (“Vai, minha tristeza /E diz a ela que sem ela não pode ser / Diz-lhe, numa prece / Que ela regresse / Porque eu não posso mais sofrer”). Como não poderia deixar de ser, ela também teve como coro todo o auditório.

 

No encerramento, a leitura de “Recado de Primavera”, de nosso adorável cachoeirense Rubem Braga, “o sabiá da crônica nacional”, que também faria 100 anos em 2013. Tal carta é de 1980, ano em que o “Poetinha” retirou-se de cena. De lá ‘pra’ cá, já se vão 32 (quase 33) primaveras.

 

Ao fim do espetáculo, fica a certeza de que Vinicius, como poucos, conseguiu ser popular e simples, mas sem ser “simplório ou estúpido”, como disse José Castello, seu biógrafo. Vinicius é raro. Ah, Vinicius, que falta você nos faz...